Neti – Neti, Dude! Neti neti

Não acende um incenso.
Não faz um mudra.

Não senta em lótus,
nem em semi-lotus.

Não vai ao livro,
Nem toca o pé do guru.

Não faz qualquer movimento.
E nem por isto fica imóvel, tampouco.

Por que te desintegrastes?
Por que te desonrastes?
Por que comprastes tal perversão de acreditar que precisas se esforçar
Para apenas ser
tua própria essência?

Não, definitivamente não me traz pré-requisitos!
Nem méritos acumulados, nem resgates da criança, nem terapias
Nem refinamentos do espírito ou purificações alimentares.

Não me traz uma história com endossos de mestres espirituais
Não me traz buda. Não fala de Cristo. Nem sequer de Krishna.

Até quando irás acreditar que te falta algo?
Diz quantos satsangs, quantos retiros
Quantos jejuns, quantos mantras ou preces
Quantos anos, quantas vidas….
Quanto tempo irás comprar para tua infinita preparação miserável?

Talvez o Cosmos não dure o tempo que precisas
Para esgotar teu anseio espiritual.
Tua ganância informe. Tua adicção por êxtases e espaços sutis.

Não me traz teus futuros e promessas de dias melhores
Não te compara a outrem ou a mim

Para de uma vez por todas qualquer trabalho de demarcação
Não quero ver-te trazendo fronteiras entre hoje e amanhã.
Não quero ver-te trazendo fronteiras entre tu e ele.
Não quero ver-te trazendo fronteiras entre Copacabana e Varanasi

Sujeito, tu jamais entendes do Espírito
Espírito, Acorda e abrace este sujeito.
Derrete este sujeito de gelo entristecido, com teu calor
E depois refresca-o em tua brisa
Esta brisa traz sussurros, sussurros de ninguém…
Endereçados para ninguém, abraçando com
Infinito Amor
Todo o Espaço
e Todo o Tempo.

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Verdade?

A Verdade não é honesta, nem desonesta.
A Verdade não é moral, nem imoral.

Ser verdadeiro sequer significa dizer a verdade
A verdade não pode ser dita e, ao se tentar, necessariamente se mente

Opinião, ideologia, certo ou errado,
Filosofia, conceito, fato consumado

Linhas, curvas, fluxos, perspectivas
Trilhas viciadas, um, dois, três caminhos

Não passam de estreitas alamedas sobre um pequeno planeta
E de pequenos seres que descobriram formas de descrever suas estreitas alamedas
E que, com suas próprias palavras, durante um suspiro da história do Universo,
Sonharam e mataram pois decidiram que todo o Universo seria como suas
Estreitas alamedas.

Grande desperdício sentir-se conhecedor de verdades.
Sentir-se conhecedor de verdades é viver com olhos vendados.
Criança alienada de sua inocência, ao ter sua fantasia substituida pela ciência.
Olhar entristecido, paraíso perdido, mais um cidadão.

O espírito era maior do que este imenso Universo quando não se sabia.
E microbiótico se tornou quando lutou por suas verdades, que nem são suas
Nem tampouco verdades.

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Despertando Agora (text)

Nós normalmente buscamos a realização através de formas que vão sendo construidas, ou planos que são colocados em prática. A nossa ideia de realização enquanto pessoa normalmente está atrelada a um ponto-de-vista que defende que situações ou objetos devem ser conquistados. Esta conquista implica em um processo, que envolve distância, tempo.
Observemos os pequenos afazeres individuais, como um simples gesto de acender um cigarro ao sentir ansiedade, bem como os grandes afazeres coletivos, como a civilização que por um lado corre para aumentar a produção e por outro consome cada vez mais rápido e em mais quantidade.
Em ambos os casos observamos o mesmo desdobramento do seguinte ponto-de-vista: a ideia de insuficiência, uma distância psicológica entre um agora supostamente pior e um durante/depois supostamente melhor e, finalmente um depois que mesmo cumprindo o esperado no início se torna imediatamente insuficiente, dando reinício a todo o processo.
Não é mais ou menos isto que estamos fazendo com a nossa vida individual? E não seria isto que os homems estão fazendo enquanto sociedade?
Neste ponto poderíamos analisar como no nível individual e no nível coletivo tal atitude em regime desenfreado, automático e compulsivo, degrada pessoas, cria patologias e destroi o planeta.
Mas gostaria de prosseguir por outro caminho.
Existem coisas que são inquestionáveis na vida. Tudo, absolutamente tudo o que conhecemos tem uma duração e, portanto, um início e um fim. Talvez o mais difícil de aceitar seja a própria morte, o envelhecimento, a decomposição e a extinção deste corpo biológico, deste cérebro, desta indivíduo.
Qualquer forma, seja um objeto, um planeta, um átomo, uma sensação, uma emoção, um pensamento, nasce, vive por um tempo e cessa de existir como tal.
Esta impermanência é talvez uma das poucas coisas das quais pode-se ter certeza. Não se trata de uma crença, uma proposição. É um fato.
O segundo ponto inquestionável a respeito da existência é que por de trás de toda forma observada, seja um pensamento, um objeto, uma sensação, existe uma faculadade de observação, atenção, consciência.
De forma que não poderia haver forma alguma se não houvesse uma faculdade de observação, testemunho para perceber a forma. Não existe sentido em se clamar pela existência de formas que não podem ser observadas, deduzidas (observadas) ou inferidas (observadas).
Neste exato momento, em que este discurso é apreendido, perceba o que ou quem apreende o discurso. Reconheça a atenção, a observação a consciência por trás desta ação, desta compreensão. Perceba também que você tem pontos de vista, julgamentos, concordâncias ou discordâncias sobre o que está sendo colocado aqui. Perceba que tais pontos de vista são também pensamentos, redes conceituais através das quais se filtra e se observa.
Perceba que por trás deste discurso existem seus pontos-de-vista e, por trás dos pontos-de-vista, existe ainda a faculdade da observação. Esta pura observação pode observar não só este discurso como também o diálogo interno a respeito deste discurso.
Enquanto essas palavras são assimiladas, uma profusão de ideias, concordâncias, discordâncias, expectativas são provocadas. Todo este movimento de conceitos e pensamentos são formas que surgem em um espaço de observação.
Nós normalmente nos esquecemos completamente da existência deste espaço aberto, pré-conceitual, pré-verbal, não-julgador porque paassamos a vida montados em pontos-de-vista, tomando partidos, em conceitos que são lentes através das quais vemos o mundo.
Se nos observamos agora, percebemos que há consciência, atenção que ilumina todas as formas internas e externas. Algumas formas são tão próximas que a própria atenção se confunde com elas e se tornam pontos-de-vista que determinam toda a nossa interpretação pessoal de mundo.
Ainda que indentificada com pontos-de-vista, a consciência em si é evidente, simples de ser encontrada, óbvia no momento presente.
Esta consciência está aqui agora. Esta consciência estava aqui há dois minutos atrás. Havia consciência há uma semana, há um ano atrás. Esta mesma consciência estava aqui no momento que você nasceu…e fundamentalmente esta consciência testemunhou o início da vida neste planeta, a separação dos continentes, a formação de galaxias, o big bang…
Percebe agora que, dito isto, outros novos pontos-de-vista podem surgir, ceticismo, discordância… Qualquer conceito que surge em sua mente neste momento é igualmente o movimento de formas, com início, meio e fim. Qualquer julgamento a respeito do que está sendo dito é também uma forma em movimento.
Perceba o que observa todo este fluxo. Esta simples ação, que não exige esforço, é a ação mais poderosa que um ser humano pode empreender. É o reconhecimento instantâneo, imediato, do espaço aberto, que contém todo o mundo observado, bem como o sujeito que interpreta e os pontos de vista que qualificam, ou que criticam. Este reconhecimento nos remete a uma realidade pura, que nos coloca numa condição anterior a de ser este humano dotado de corpo, cérebro, memórias e opiniões.
E lembre-se, qualquer julgamento a respeito do que está sendo colocado é uma forma. Por que tomá-la como propriedade sua? Uma opinião “sua”? Quem é você quando você reconhece inclusive este espaço onde o mundo e você surgem igualmente enquanto formas?
Então, neste ponto, se estamos juntos, podemos entender com clareza que por um lado existem formas montando-se e desmontando-se continuamente na existência. Neste ponto dispensamos qualquer ideia de fronteira entre dentro e fora, sujeito e objeto (ou melhor, se esta ideia surge, inclusive ela é apenas o movimento de um ponto-de-vista que não precisa ser acreditado).
Aqui, onde estamos, não existe sujeito, apenas objetos. E aqui, sem qualquer temor, a sua pessoa é apenas uma rede conceitual destinada a se desorganizar e a se decompor.
Neste universo de bilhões de nascimentos e mortes corriqueiras, onde o nosso corpo biológico não contém nem mesmo uma única célula hoje que existisse há 7 anos atrás; neste universo de nascimentos e mortes corriqueiras, onde a organização é um privilégio numa sopa caótica de partículas e vetores de energia; a maior ousadia da forma é ela mesma atingir um status de sujeito, de pessoa que nega seu próprio destino de extinção.
Bem aqui, imediatamente atrás de toda a dança de formas e vetores, sujeitos autointitulados, está a consciência, sentido, percebendo todas as cores do mundo.
Difícil permanecer nesta posição? Fácil escorregar para o domínio do sujeito, dos julgamentos, das resistências conceituais? Fácil de retornar a este escafandro apertado mas conhecido, com janelas estreitas, mas blindadas? Sim, este escafandro do sujeito, com seus pontos-de-vista socialmente, culturalmente injetados ?
A voz que grita e emite opiniões não é você, é um implante cultural, talvez um implante etnocêntrico, talvez um implante cientificista, ou positivista. Nem mesmo chamar isto de implante seria uma abordagem justa, tavez não existam sequer mentes individuais.
Talvez a mente seja como uma sala de espelhos onde um cachorro é inadvertidamente solto e começa imediatamente, tomado por cólera, a rosnar contra os milhares de outros cachorros virtuais que aparecem e se proliferam por todo o espaço imaginário. Talvez seja a própria mente em si que faz de um muitos, que estabelece fronteiras entre dentro e fora, entre eu e você, entre hoje e ontem.
Enquanto o cão rosna tentando defender seu ponto de vista contra o vigésimo cão que surge diante de si, o espaço da pura observação se mantém numa indiferenciação quase que generosa, num testemunho quase que afeiçoado, quase amoroso, num gozo suave de sabedoria, liberdade de pura observação de qualquer forma que não pode de forma alguma manchá-lo…
Qual é o sabor deste reconhecimento deste espaço de indiferenciação? Este momento, este exato momento é o único momento que existe. Não foi sempre assim? Não se habita sempre o aqui-agora? Ora com corpo de criança, ora com corpo de atulto, ora com imagens projetadas numa tela de cinema? Quando estamos no cinema, não passamos a habitar mais os corpos dos personagens do que os nosso próprios? A ponto de se comover, se emocionar durante o filme? O que é este espaço de observação que facilmente se identifica com coisas? Afinal, o que é o sujeito senão a própria memória em ação, uma busca compulsiva por auto-referência?
Um amnésico, que perdeu toda a sua história, ainda observa, completamente nú, completamente virgem, livre de todo o passado. Ele ainda sente, ainda vê, ainda percebe e manipula conceitos. Apenas não tem auto-referência. Ele não é mais aquele sujeito.
Nada mais do que uma lesão microscópica. Basta uma pequena lesão microscópica para todo este seu Eu tão esmerado, tão educado, tão cheio de laços familiares, tão cheio de preocupações, tão cheio de títulos, tão cheio de infortúneos, tão cheio de glórias, de um segundo para o outro não esteja mais aí, nem mais um traço dele, perdido para sempre nos confins do Cosmos.
Ao que estamos nos apoiando? Por que mesmo vivemos a vida, passamos a vida, morremos a vida defendendo com unhas e dentes que somos esta entidade, tão volátil ? Apenas por medo de relembrar sua verdadeira natureza?
Se você não for mais apenas este Eu, você conseguirá ser tão autocentrado? Com o que você se ocuparia, a não ser com o benefício de todos os seres, de toda a criação?
Isto, neste momento diversas imagens passam aí, diante do plano infinto de observação. Percebe este fluxo automático, compulsivo de opiniões, elas não são suas, elas são todas emprestadas. Permanece apenas com aquilo que te diz respeito – o infinito.
Fica aí. Não se mexe. Apenas acorda, o filho pródigo pode retornar pra casa. Há de ter uma grande festa.

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Solidão no Infinito

Sofrer de solidão…
Quem quer sofrer de solidão?
Afinal, quem sofre de solidão?

A solidão vem devagar como uma correnteza lenta de cacos de passado.
Imagens que se misturam com sensações de amores e belezas deixadas no tempo.

Lágrimas engasgadas, espelhos quebrados refletindo feições esmaecidas.
Sorrisos de faces desgastadas em fotografias em sépia.
Gargalhadas em pianíssimo ralentando ao infinito.
Vento seco atravessando um ambiente amplo de azulejos rachados,
Ovimos ecos de vozes desencarnadas.

O vento do fim de tarde, que vem de lugar nenhum e segue
Em direção ao Sol poente de um domingo da alma
Sonho de coração estilhaçado em fragmentos de plástico sobre poças de formol.

Por favor, mostre-me quem inventou a solidão e mostre-me quem sofre a solidão.
A solidão não requer antídoto para aquele que viu o seu desenho, em seu cyber-tempo e cyber-espaço.

Apenas o sonho de ser uma pessoa pode promover o sonho da solidão.
Consciência pura apenas se diverte com os sonhos de pessoa e os sonhos de ser só.

A solidão é de fato enorme, infinita. Mas quem se importa?

O puro espaço aberto e vasto onde a solidão desfila como um fino lençol de seda
É Infito de ordem superior.

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Além das Descrições

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Em resposta à sofisticação do Fisco da Receita

Estamos sendo sufocados pelos sistemas de informação a serviço da máquina do Estado.
Lamentavelmente, a perda da possibilidade de pequenas fraudes (ou mesmo pequenos descuidos) que ainda são uma das poucas formas de defesa e sadia informalidade da população, está longe de ser acompanhada a um sistema punitivo equivalente para os ladrões de grandes cifras.
Chega a ser uma piada: que os grandes ladrões não possam ser muito discerníveis do Estado em si, aprovador e executor desta coisa, que mais parece uma anti-reforma fiscal.
Os meios de controle vão se sofisticando ao mesmo passo em que a tapeçaria de informação e poder vai se tornando mais densa.
Onde vamos parar, eu não sei. Mas tudo parece apontar para um regime de vigilância muito fino em vários estratos e nívels sociais, institucionais, policiais, financeiros e psicológicos.
Vemos um mundo burguês onde os assuntos da mesa são desdobramentos de curto alcance das agências de notícias e dos big brothers. É também o mundo em que os valores são passados de uma geração para a próxima com muito pouco questionamento. Vemos um ser humano enquadrado em estruturas psíquicas e comportamentais inebriantes, sedativas, vestindo uma camisa onde se lê: “liberdade de escolha burguesa”. Quão livre somos?
Olhem o absurdo de muitos discursos naturalizados como aqueles que colocam os políticos e grandes empresários na qualidade de vilões e os outros (nós) enquanto vítimas. Não que eles não sejam vilões e nós não sejamos vítimas, dentro de uma justa perspectiva !
Entretanto, é importante reconhecer que este discurso jamais promoveu mudanças fundamentais. Há sempre uma classe de privilegiados e uma classe de desfavorecidos no mundo, ao longo da história da Cvilização Ocidental. Até hoje temos imensa ganância, imenso desprezo, imenso conflito e um profundo desafeto e desrespeito por nós mesmos (gênero humano) e pela Vida orgânica da Terra.
Os berros sindicalistas, as greves, punição de políticos corruptos, revolta armada,  não vão resolver. Nunca foram capazes de fazê-lo.
Estamos diante de uma Crise na Consciência da Humanidade.
Não são indivíduos ou instituições em crise. É a Humanidade em sua totalidade.
E tudo isto se apresenta desta forma porque nos movemos de maneira automática adotando todo um comportamento sonâmbulo.
E nos movemos sobre uma espécie de plano de sonhos apenas porque não dedicamos uma hora sequer do dia a perguntar profundamente “Quem Sou Eu??”. Isto a Escola e a Universidade não nos ensinam. Nem nossos pais, nem nossos tios.
O que é este fenômeno gerador de ganância, de ansiedade, de medo, da gula, dos excessos, da violência que existe no íntimo de cada um de nós? O que é este fenômeno gerador de uma impressão de um Eu-Separado-de-Você?
Pois eu digo que a pele não é a fronteira do seu Corpo e você não é aquilo que você pensa, nem mesmo o conjunto de suas lembranças e valores adquiridos chegam a tocar aquilo que você é.
Guardar lembrança qualquer iPod Pode fazer hoje. Adquirir valores e agir condicionadamente, muitos sistemas computacionais estão surpreendendo neste sentido também.
Quem sou eu no meio disto tudo? Estas impressões e emoções são escolhas minhas ou são atravessamentos de fluxos coletivos?
De que forma estas impressões que se passam no interior do sujeito sustentam, no seu somatório, o mundo que vivemos?
Quando eu olho para dentro de mim encontro aqui dentro razões e impressões que dariam origem a um espectro tão  grande de ações, desde as mais cruéis às mais sublimes. Duvido que algum ser humano não seja assim também.
Portanto me parece uma visão de muito curto alcance este sonho de acusações cruzadas em que vivemos. A culpa é do outro…Se não fosso por eles…Ah, este Governo ! e todo este tipo de coisa apenas descreve um mesmo fato: ignorância interior.
Veja bem, comecei este desabafo criticando o Estado, mas, novamente afirmo, a crise do Estado é evidentemente a do Estado da Alma.
A Alma que se Aprisiona tem o Aparelho de Estado que lhe cabe.
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Livre Pensar

Para que serve o pensamento ? Quem pensa ? E como se desenvolve esta relação entre aquilo que pensa e o conteúdo pensado?

Algo de estranho parece estar acontecendo nesta mente humana. Aquilo que se pensa está quase sempre relacionado com uma entidade, um sujeito, uma pessoa. Em outras palavras, normalmente se afirma que é o sujeito que pensa. Mas inclusive a conclusão de que há um sujeito pensando aqui dentro é um pensamento em si. De forma que, extraindo-se toda a teia de pensamento a respeito de um sujeito, não resta qualquer sujeito.

É como que, se ouvíssemos insistentemente um vendedor promovendo um produto que não existe de fato, acabássemos tomando como certa a existência do produto após algum tempo.

No máximo o que se pode dizer é que uma população de conceitos, lembranças e projeções provocam-se mutuamente seguindo determinados padrões repetitivos, criando a ilusão de um falso núcleo que se chama pessoa, indivíduo estanque.

Permitindo um vôo do pensamento e falando do vôo em si, o pensamento fala do pensamento e dos potenciais de se pensar não aprisionando-se nos cárceres milenares do sujeito.

Se ouvimos vozes falarem sobre infernos e punições que duram eras ou um tempo infinito em um mundo após a morte, ouviu-se na verdade a descrição exata da condição autopunitiva que o pensamento se coloca aqui neste momento no interior destes seres humanos ditos vivos.

Uma pseudo-entidade que terá o inescapável desprazer de ver e sentir um corpo que jura que é seu (e exclusivamente seu) irreversivelmente mutilado ou degradado com a idade avançada. Uma ficção que, uma vez criada, acreditada e mantida, tenha que ainda criar um inconsciente e reprimir o terror da lembrança da própria morte. Esta miserável ficção terá que esconder de si qualquer informação que lhe relembre seu destino absolutamente cruel. Desta forma, irá criar também todo um mundo de distrações, religiões, entretenimentos, carros velozes, iates, obrigações morais ou patrióticas, ideologias, ou sabe-se lá o que mais para entulhar um breve suspiro de vida que exala vaidade e intimamente sofre de um trauma incurável. Não, nenhuma terapia será capaz de reslver.

É um problema sem solução, afinal é insensato lutar contra um sonho ou uma miragem.

É claro que eventualmente, sobre este picadeiro dramático, uma pessoa querida morre ou, quem sabe, uma grande frustração no decorrer da história do protagonista onde, repentinamente, tudo o que se usava para entulhar o vazio do coração, de um momento para o outro, não tem mais sentido.

Afinal, não há como evitar que uma bolha de sabão arrebente da forma mais imprevisível e inesperada, a qualquer momento.

Ora! Esta existência é um grande milagre. Não apenas o milagre disto tudo estar existindo, mas também o milagre de isto tudo estar sendo mantido (até quando?) bem como o maior dos milagres – a capacidade de testemunhar a isto tudo – a Consciência em si.

Bem no núcleo deste milagre, bem próximo está este corpo que permite experimentar e se deliciar com toda a vida ao redor. Ainda mais próximo parece estar o pensamento. Mas mais próximo de que? Veja bem, aquela qualidade (ou coisa) que observa uma montanha à distância também observa o pensamento mais íntimo. Chamamos esta testemunha do mundo de Qualia, Consciência – a percepção daquilo que se manifesta no presente, a presença em si.

Ora, se o núcleo do ser é Qualia (awareness, Consciência) e que todo o resto, desde um pensamento, emoção até a montanha observada à distância, é no núcleo reduzido a estas Qualia, isto é o que somos essencialmente, a percepção em si.

Se não somos o que pensamos, se o pensamento é um fenômeno tão externo a awareness quanto a montanha que aparece à distância, repensemos os propósitos e potenciais desta falculdade de pensar.

Estou desconfiado profundamente que temos aqui a fina flor da invenção do cosmos (o neocortex pensante) e agora vivemos um momento histórico que parece bem convidativo à liberacão do Pensamento numa dimensão bastante ousada.

O pensamento preso a preocupações e definições auto-centradas é um desperdício. O pensamento em verdade é um fenômeno absolutamente impessoal como todo o Cosmos. É apenas através de uma modificação e uma construção sobre conceitos e ideias que desenvolvem e fortalecem um centro ilusório, que emerge a convicção de pessoa e de separação.

O que significa então deixar este corpo ser a plataforma biológica para um experimento desta magnitude – viver uma vida Impessoal ? Vale à pena deixar a reflexão seguir, impessoalmente…

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